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Murilo Coutinho fracassou anteriormente, você
pode ver as evidências em
sensacionalista. Se quiser rir, não se importe. Após este fracasso ele tem
andado totalmente desorientado.
Escuta discos estranhos, como
The Cure - Kiss me, kiss me, kiss me, Sufjan Stevens - Come on feel the Illinoise e Joni Mitchell - Blue. .
projeto gráfico de isabela ramos.
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Quinta-feira, Abril 05, 2007
A noite caiu e quebrou a si mesma
Hoje faz um ano que ela foi embora. Levou as fotos, as cartas, os livros, tudo. Só resta comigo a saudade. Inconscientemente, comecei a procurar pelo quarto qualquer coisa que eu pudesse olhar ou tocar que me lembrasse da presença dela. Procurei o dia inteiro e, à noite, eu encontrei. Era preciosa demais para mim esta lembrança viva que resolvi guardá-la num lugar onde ninguém pudesse levá-la embora. Peguei uma escada e tratei de subir no último degrau, na ponta dos pés, e guardei no lugar mais alto que pude.
Agora entendo porque ela partiu, entendo claramente: Eu não fui cuidadoso e a única recordação que havia guardado se despedaçou. Nunca fui cuidadoso com o amor, além de ser terrivelmente insensível. Consigo lembrar que, por conta dela ter uma escrita muito ruim, por vezes escrevia uma ou outra palavra errada numa das cartas que me entregava. Quase sempre, no outro dia, eu tratava de devolvê-la - por isso não tenho nenhuma carta guardada comigo -, com os erros ortográficos marcados de vermelho. Na última carta ela conseguiu separar errado a palavra amor ao passar o texto de uma linha para a outra. Conseguiu separar as sílabas em "am" e "or". Confesso, agora, que isto afligia diretamente o sentimento que eu tinha por ela. Como eu sou miserável, percebo agora só, mas o faço, neste momento, com todo o peso e vergonha de quem faz isto com um atraso irreparável. No dia seguinte expliquei a ela que amor é uma palavra que só se divide em duas sílabas: "a" e "mor". Isto explica muito para mim que era essa pessoa que dizia que me amava, é verdade. Ela queria repartir o sentimento de forma igual para nós dois e eu teimei em dividir conforme as regras sempre impuseram. E no amor não há regras, muito menos as de ortografia, reconheço isto hoje. Amor é uma palavra que só se divide em duas sílabas e entre duas pessoas e exatamente na mesma proporção; de um lado alguém fica com a menor parte do sentimento, só com o início "a", e do outro alguém com a maior parte, "mor". Ela só quis repartir com igualdade. O amor me provoca superstições desde então.
Ao descer da escada, acidentalmente esbarrei com na única lembrança que dela eu guardava e esta caiu ao chão, partindo-se. Quando percebi a noite havia caído e quebrado a si mesma em mil pedaços e não pude juntá-la, reconstruí-la. A noite havia partido a si mesma. Até mesmo tentei refazê-la, unindo os pedaços um a um, mas as falhas eram evidentes, era visível o estrago da queda. Era possível ver as falhas, que eram alguns pedacinhos brancos míudos, é verdade, mas numerosos. Quando se olhava pro céu da noite já não era a mesma coisa. Não adiantou subir de escada, tentar deixar algo além da distância que os dedos pudessem tocar sem tirar os pés do chão. Tentei preencher estes espaços com outras cores, mas não tive sucesso, parecia que ao misturá-las junto ao manto negro da noite elas esvaeciam até desaparecerem e os buracos novamente reapareciam.
Eu estava morrendo de vergonha pela minha culpa. Anoitecer era algo fantástico, era onde se podia ficar perto do silêncio, onde se poderia olhar para dentro de si mesmo com o simples ato de olhar ao redor. Minha vergonha era incontrolável, senti enorme vontade de chorar. E chorei. Chorei ao ponto de soluçar, tal como uma criança. Minha dor era sincera. Pûs minhas mãos contra o rosto como se fosse possível desta maneira conter ou, ao menos, guardar as lágrimas, mas elas transbordavam minhas mãos. Então, tratei de enxugá-las, num ato de pura raiva a tudo isto, a toda esta situação, a toda esta vergonha, a todo este dano de ter destruído a única coisa no mundo tão negra quanto a cor dos olhos dela e virei a mão contra o céu tocando-o, para tentar tocar o arrependimento que eu não alcançava e a dor de perdê-la, ah, esta doía até hoje, e nesta noite agravara, pois quebrei a única lembrança que ela havia me dado, e o fez para que lembrasse dos olhos dela. Toquei, então, com as pontas dos dedos ainda encharcados, a noite e os pedacinhos brancos miúdos que ficaram ali. Acho que foi por isso que as estrelas do céu começaram a brilhar.
Murilo Coutinho.
21 de maio de 2006.
murilo, 11:31 PM ...
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All memories must remain.
forever.
alle Erinnerungen müssen bleiben.
immer.
murilo, 11:02 PM ...
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Sábado, Julho 30, 2005
[...]
Quero formular agora, companheiros, qual é a minha opinião, a visão de um dirigente nacional das ORI, do que é que deve ser um jovem comunista, a ver se estivermos de acordo todos.
Eu acho que o primeiro que deve caracterizar um jovem comunista é a honra que sente por ser um jovem comunista. Essa honra que o leva a mostrar perante todo o mundo a sua condição de jovem comunista, que não o virá para a clandestinidade, que não o reduz a fórmulas, mas que o exprime a cada momento, que lhe sai do espírito, que tem interesse em demonstrá-lo porque é o seu símbolo de orgulho.
Junto disso, um grande sentido do dever para a sociedade que estamos a construir, com os nossos semelhantes como seres humanos e com todos os homens do mundo. Isso é algo que deve caracterizar o jovem comunista. Ao pé disso, uma grande sensibilidade ante todos os problemas, grande sensibilidade face à injustiça. Espírito inconformado cada vez que surge algo que está mal, tenha-o dito quem o disser. Pôr em questão tudo o que não se perceber. Discutir e pedir esclarecimento do que não estiver claro. Declarar a guerra ao formalismo, a todos os tipos de formalismo. Estar sempre aberto para receber as novas experiências, para conformar a grande experiência da humanidade, que leva muitos anos a avançar pela senda do socialismo, às condições concretas do nosso país, às realidades que existem em Cuba. E pensar - todos e cada um - como irmãos mudando a realidade, como irmãos melhorando-a.
O jovem comunista deve tentar ser sempre o primeiro em tudo, lutar por ser o primeiro, e sentir-se incomodado quando em algo ocupa outro lugar. Lutar sempre por melhorar, por ser o primeiro. Claro que nem todos podem ser o primeiro, mas sim estar entre os primeiros, no grupo de vanguarda. Ser um exemplo vivo, ser o espelho onde possam olhar-se os homens e mulheres de idade mais avançada que perderam certos entusiasmos juvenis, que perderam a fé na vida e que ante o estímulo do exemplo reagem sempre bem. Eis outra tarefa dos jovens comunistas.
Junto disso, um grande espírito de sacrifício, um espírito de sacrifício não apenas para as jornadas heróicas, mas para todo o momento. Sacrificar-se para ajudar o companheiro nas pequenas tarefas e que possa cumprir o seu trabalho, para que possa cumprir com o seu dever no colégio, no estudo, para que poda melhorar de qualquer maneira. Estar sempre atento a toda a massa humana que o rodeia.
Quer dizer: apresenta-se a todo jovem comunista a tarefa de ser essencialmente humano, ser tão humano que se aproxime ao melhor do humano, purificar o melhor do homem por meio do trabalho, do estudo, do exercício de solidariedade continuada com o povo e com todos os povos do mundo, desenvolver ao máximo a sensibilidade até se sentir angustiado quando um homem é assassinado em qualquer canto do mundo e para se sentir entusiasmado quando em algum canto do mundo se alça uma nova bandeira de liberdade.
O jovem comunista não pode estar limitado pelas fronteiras de um território, o jovem comunista deve praticar o internacionalismo proletário e senti-lo como coisa sua. Lembrar-se, como devemos lembrar-nos nós, aspirantes a comunistas cá em Cuba, que somos um exemplo real e palpável para toda a nossa América, para outros países do mundo que lutam também noutros continentes pela sua liberdade, contra o colonialismo, contra o neocolonialismo, contra o imperialismo, contra todas as formas de opressão dos sistemas injustos. Lembrar sempre que somos um fácil acesso, que somos o mesmo espelho que cada um de nós individualmente é para o povo de Cuba, e somos esse espelho para que se olhem nele os povos da América, os povos do mundo oprimido - que lutam pela sua liberdade. E devemos ser dignos desse exemplo. Em todo o momento e a toda a hora ser dignos desses exemplos.
Isso é o que nós julgamos que deve ser um jovem comunista. E se nos dissesse que somos quase uns românticos, que somos uns idealistas inveterados, que estamos a pensar em coisas impossíveis, e que não se pode atingir da massa de um povo que seja quase um arquétipo humano, nós temos de contestar, uma e mil vezes, que sim, que sim se pode, que estamos no certo, que todo o povo pode ir avançando, ir liquidando intransigentemente todos aqueles que ficarem atrás, que não forem capazes de marcharem ao ritmo a que marcha a revolução cubana. Tem de ser assim, deve ser assim, e assim é que será, companheiros, será assim, porque vocês são jovens comunistas, criadores da sociedade perfeita, seres humanos destinados a viver num mundo novo de onde terá desaparecido de vez todo o caduco, todo o velho, todo o que representar a sociedade cujas bases acabam de ser destruídas.
Para atingirmos isso cumpre trabalhar todos os dias. Trabalhar no senso interno de aperfeiçoamento, de aumento dos conhecimentos de aumento da compreensão do mundo que nos rodeia. Inquirir e pesquisar e conhecer bem o porquê das coisas e colocar sempre os grandes problemas da Humanidade como problemas próprios.
Destarte, num momento dado, num dia qualquer dos anos que virão - após passarmos muitos sacrifícios, sim, depois de termos-nos porventura visto muitas vezes à beira da destruição - após termos porventura visto como as nossas fábricas som destruídas e de tê-las reconstruído de novo, depois de assistirmos ao assassinato, à matança de muitos de nós e de reconstruirmos o que for destruído, ao fim de isso tudo, um dia qualquer, quase sem repararmos, teremos criado, junto dos outros povos do mundo, a sociedade comunista, o nosso ideal.
O Que Deve Ser um Jovem Comunista (fragmento)
Ernesto 'Che' Guevara
Edição: Conferência pronunciada na União de Jovens Comunistas em 20 de Outubro de 1962.
Publicado em:Verde Olivo, ano 3, nº 43, 28 de Outubro de 1962, Havana, Cuba
Fonte: Gentilmente cedido pela www.primeiralinha.org.
HTML: por José Braz para o Marxists Internet Archive
murilo, 9:15 PM ...
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Segunda-feira, Maio 30, 2005
Roupas no varal;
Presas no fio
as velhas e brancas
úmidas e enrugadas
ainda pingavam
todo o suor
que conseguiam
lembrar.
Não há vento
- brisas, tampouco -
O único sopro
foi um suspiro
de cansaço.
Os pregadores caem
em pedaços no chão.
(todas as roupas libertas sobem ao céu).
Um sopro de dúvida
E sorriso.
Tudo ali
Havia sido amarrado
pelos pulsos
em fio
- de arame enfarpado -
até despedaçar em amor.
Roupas no varal, Murilo Coutinho
7 de Outubro de 2004.
murilo, 2:06 AM ...
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Segunda-feira, Maio 23, 2005
Cruzou por mim, veio falar comigo, numa Rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se vê
na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo
quanto tinha
(Exceto naturalmente, o que estava na carteira onde trago mais
dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...),
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida
Não ser juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?
Sim, ser vadio e pedinte como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser
Pedinte.
Tudo o mais é estúpido como um Dostoiévsky ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que não vale a pena a gente ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido transtalto,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!
E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.
Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.
Fernando Pessoa, Estéticas do Coração
murilo, 4:16 PM ...
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Quarta-feira, Maio 18, 2005
É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isto; eis o única problema.
Para não se sentir o fardo horrível do Tempo, que vos abate e
vos faz pender a terra, é preciso que vos embriagueis sem trégua.
Mas - de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio,
Na verde relva de uma vala,
Na desolada solidão do vosso quarto,
Tu te encontrares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
Perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
A tudo aquilo que gira, a tudo aquilo que voa, a tudo aquilo que canta,
A tudo aquilo que fala, a tudo aquilo que geme, pergunte que horas são;
E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, te responderão:
- É hora de se embriagar !
Para não ser como os escravos martirizados do tempo,
embriaga-te. Embriaga-te sem cessar.
De vinho, de poesia ou de virtude. A teu gosto...
(Charles Baudelaire, Embriaga-te)
murilo, 3:05 PM ...
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Segunda-feira, Abril 25, 2005
Carta nunca enviada de Vladimir Maiakóvski
Lilitchka!
Em lugar de uma carta,
Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto -
um capítulo de inferno krutchônikh.
Recorda -
Atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração - aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu "hall" escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo ,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
- duro fardo por certo -
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mais a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos - rodopiante carnaval -
dispersarão as folhas dos meus livros...
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.
Por Vladimir Maiakóvski,
Em 26 de maio de 1916, Petrogrado.
murilo, 12:45 AM ...
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Quarta-feira, Abril 13, 2005
Este aqui é um trecho da carta que tratava o texto anterior.
"Hamagangur, Ég Þusti Niður Að Læknum, Bjargvættur. Ég Gerði Skip Tilbúið Og Fór Með Litla Bæn Því Ég Var Hræddur, Sólin Skein Og Lækurinn Seytlaði Sóley - Sóley Flugurnar Drepast. En Í Dag Á Ég Að Bjarga Sem Flestum Flugum Með Spotta Í Skip Ég, Er Með Í Hvorri Hendi - Ákveðinn. Ég Kasta Þeim Út Í Hylinn Og Reyni Að Hala Flugurnar Inn Áður En Seiðin Ná Til Þar Sem Þær Berjast Við Strauminn Og Vatnið, Þannig Líður Dagurinn. Sjálfur Kominn Um Borð, Var Farinn Að Berjast Við Bæjarlækinn Sem Hafði Þegar Deytt Svo Margar Ég Næ Ekki Andanum Og Þyngist Við Hverja Öldu, Mér Vantar Kraftaverk Því Ég Er Að Drukkna Syndir Ég Reyni Að Komast Um Borð.
Ég Dreg Í Land Og Bjarga Því Sjálfum Mér Aftur Á Bakkann. Á Heitan Stein Ég Legg Mig Og Læt Mig Þorna Aftur, Ég Kasta Mér Út Í Hylinn Og Reyni Að Hala Flugurnar Inn Áður En Seiðin Ná Til Þeirra Þar Sem Þær Berjast Við Strauminn Og Vatnið.Gustur, Allur Ennblautur, Frakkur Finnur Hvernig Báturinn Er Kominn Úr Mesta Straumnum Og Landið Smám Saman Nálgaðist.Hann Bæði Um Borð Í Sjó Og Landi Bjargandi Flugunum Sem Farast Hér, Murilo Coutinho É A Vergonha Do Coração. Þó Sér Í Lagi Sjálfum Sér, Eilíft Stríð Og Hvergi Friður. En Það Verður Einhver Að Fórna Sér. Dagarnir Eru Langir".
Munnin
murilo, 2:16 PM ...
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Sonho febril, doença tropical.
"Ontem à noite eu escrevi uma carta de amor. Falo de amor, realmente eu falo de amor. Creio que eu seja capaz disto, ao menos sou ingênuo o suficiente para ter espectativa de ser benquisto por outra pessoa.
Recordo que escrevia de um só fôlego, que escrevia apressado como se estivesse num permanente atraso, onde o relógio pendurado na parede confirmava isto em seu tiquetaquear sem que os ponteiros, aparentemente, se movessem. Mesmo assim o que contava era a sensação de atraso, que gerava aflição duas vezes; a primeira por sentir um atraso referente a ter que escrever a carta e, em segundo lugar, a aflição de ter que fazer isto e não ter um propósito, alguém a quem eu pudesse destinar a carta.
Aquela aflição começava a extrapolar o compreensível e controlável pela razão, até mesmo isto era desejado, pois escrever uma carta de amor usando o raciocínio é demonstração de burrice. É extasiante pensar que não havia mais controle naquilo que eu escrevia. Houve um momento que doeu-me as costas, por conta disto levantei-me. Preferi não pegar novo fôlego, preferi prender aquela sensação que estava em mim, sendo aquele levantar foi um gesto abrupto, desajeitado, onde para poder continuar em pé precisei agarrar-me nas cortinas que ali perto estavam. Equilibrei-me sobre os pés doloridos, apertados pelos sapatos desconfortáveis que arranquei com os próprios pés pisando um no outro, chutando-o. Empurrei as cortinas para o canto, fazendo ranger os trilhos de suporte que a mantinham no teto. A janela gradeada pouquíssimo me proporcionava numa noite chuvosa e encravada em silêncio somente rompido pelo barulho da própria chuva e das buzinas dos motoristas bêbados que passavam pela rua onde eu estava. Certamente, para os moradores do terceiro andar, como eu, os sons não conseguem passar desapercebidos.
Sentei-me novamente, as palavras escorriam das mãos, do nariz, dos olhos, da boca, das gengivas, das feridas, da pele aquecida, simplesmente as palavras surgiam e todas elas eu reunia e colocava nas folhas daqueles papéis cheios de linhas tênues e marcas de margens, como se tentasse colocar regras ou limites e os transpunha, transpunha toda as margens as linhas tênues azuis, as vermelhas perpendiculares, todas foram sendo ultrapassadas e desmerecidas, pois quando uma pessoa não tem limites certamente ela não é capaz de respeitar nenhuma espécie de limite, eu sou virulento, afoito, impaciente e atrasado, ainda mais atrasado e as folhas, poucas eram, mas as preenchi uma a uma com todas as palavras que reuni organizando de uma forma que não importava a minha compreensão, somente daquele que as leria, que profundamente eu conhecia, mas não conseguia personificar em alguém que pudesse carregar um nome ou uma feição.
Recordo de um trecho da carta, o qual falava que eu era diferente de Murilo Coutinho, se não me engano era assim: "Tenho um grande sentimento por ti, por vezes é difícil ter coragem de tentar te dar um rosto, um nome próprio ou uma referência, limitar-se a isto apenas, mas sem dúvida não sou como Murilo Coutinho e a vergonha do coração, isto não". Depois de tanto tempo escrevendo aquilo, de me expor tão sinceramente naquele pedaço de papel, percebi que aquele papel havia ganho características minhas, como a constante ousadia de não temer existir. Por esta razão tive que tratar aquilo tudo de igual para igual, pois ali estava eu também. Pensei comigo e decidi que aquelas palavras deveriam ficar ali por pertencerem àquele papel e cheguei a um bom acordo. Obviamente eu estava exausto, o corpo tremia, exigindo parar. Ali mesmo, sobre os papéis, as canetas, sobre as palavras, eu adormeci.
Acordei com a luz incomodando o meu sono, forçando que voltasse a minha consciência. O relógio lá estava na parede, na hora certa, com os ponteiros agitados, concentrados no ritmo do tiquetaquear e marcando que já era pela parte da tarde, uma três horas. Nem sequer havia resquícios d¿água no vidro, até mesmo abri a janela para sentir se havia vento, ou, quem sabe, vento de chuav (Perdão, escrevi errado por culpa dos meus dedos tortos. Pensei em corrigir isto, mas não seria eu mesmo). Passei as mãos no rosto, levando os cabelos caídos na testa para trás, quando tomei um susto ao ouvir alguém esmurrando a porta da sala. Até mesmo lembrei que eu profundamente odiava visitas e mais que raramente as recebia, mas levantei uma possibilidade incomum, ao menos para mim: Quem poderia ser? Poderia, até mesmo, ser o amor da minha vida. Talvez o amor já não batesse à nossa porta, mas sim esmurrace-a, ou tocasse o interfone ininterruptamente, afinal de contas, estamos no século XXI e tudo isto tem praticamente a mesma proporção do esmurrar que eu ouvia.
Caminhava para abrir a porta, eu andava lentamente, ansioso e receoso ao mesmo tempo, sendo que os passos lentos só reforçavam o ranger das tábuas do chão. O coração disparou, a sensação da expectativa surgiu, havia esperança. Mas não havia ninguém. Fiquei a olhar a porta, desconfiado, e soltei um discreto "oi" que ecoou pelo pequeno espaço do vão do elevador que me fez perceber a estupidez do meu cansaço.
Baixei a cabeça, virei as costas e empurrei a porta, a qual estranhamente mostrou uma resistência para ser fechada, devido uma corrente de vento que adentrou por ali, o que me obrigou a usar as duas mãos para conseguir fechá-la.
Sem entender o que ali se passara, voltei caminhando lentamente para o quarto, sentindo o corpo pesar, como se estivesse inchado, com os músculos dormentes, com pouca sensibilidadade. Não sabia ao certo se era o torpor ainda do meu acordar ou mesmo a frustração de não ter sido o amor que bateu na minha porta ou, ao menos, uma visita inoportuna.
De volta ao quarto, os papéis não estvaam (perdão, meu dedos tortos novamente) mais sobre a mesa. Num primeiro momento agi de forma coerente com a minha natureza humana e fui autoconfiante e preguisoço ao mesmo tempo, pois acreditei que eu deveria ter guardado aquelhas folhas numa das gavetas do console. Estes papéis eram realmente inúteis.
O que me inmportou (o cansaço agrava a falta de destreza das mãos, perdão), na realidade, era ter uma perspectiva mais ampla sobre aquela sensação estranha deixada pela noite de ontem, que ainda em suas sobras resguardaram coisas que não estam claras para mim, na verdade muito pouco está. Fui até a janela, coloquei a cabeça apoiada entre as barras da grade de tal forma que parecia que as mesmas me esmagariam, e dei-me a olhar para baixo. Lá estavam as folhas que eu havia escrito plainando & voando & flutuando & caindo como se tivessem deixado os galhos de uma frondosa árvore.
Fui tolo, disto eu sei. Fui terrivelmente tolo. Eu poderia jurar que estas palavras ficariam aqui, pois a esta mesa, a estes dedos tortos e a esta caneta de ponta grossa pertenciam estas palavras. Enganei-me por inteiro. Eu sempre soube que as palavras tem vida própria, mas custava a acreditar até onde vai o sentido disto, até onde vai o sentido das palavras.
O coração deu um salto, um magnífico salto. Sem sequer calçar um sapato, uma sandália, como eu realmente estvaa (de pouco importa as minhas falhas dos meus dedos tortos, eu estava apressado e ah, eu recordo vividamente desta sensação), corri até a porta e a abri, o vento continuava da mesmíssima forma, empurrei a porta corta-fogo, os sacos de lixo e desci as escadas correndo, numa pressa onde meu corpo que ainda agora não se sentia muito bem esqueceu-se de sentir as dores por conta de estar sentindo demasiada esperança, suficiente até mesmo para aquela atitude que, confesso-vos, pouquíssimo compreendo até mesmo agora.
Alguns papéis já haviam caído no chão, onde se molharam nas poças d¿água que ali se formavam, outros caíram sobre um pequeno jardim feitos somente com arbustos, engatando-se entre os ramos e molhando um pouco por conta da água que ainda restava sobre as folhas.
Juntei todas as folhas e tomei o mesmo caminho para voltar até o meu apartamento, balançando-os, tentando muito inutilmente ajeitá-los, corrigi-los, para que não se perdessem, pois deles só lembrava em essência, não sabia em exato o que eu havia escrito. Os coloquei sobre a mesa da forma que estavam, sem a devida precaução de limpá-los antes, mas isto eu fiz por pressa. Sentei-me diante daqueles papéis e tentei lê-los. Num primeiro momento pensei que por conta da água eles pareciam borrados e por esta causa não pude lê-los. Peguei meus óculos e insisti. Dei por mim que as letras haviam se misturado. Não conseguia compreendê-las pois elas estavam foram de ordem, como e o vento tivesse batido e revirado todas, como folhas de árvore caídas no chão ou que a água as tivesse levado e misturado, de uma forma que nada eu pude compreender. Tentei ler todas as páginas, mas pareciam em vão, as palavras estavam fora de si. Só uma frase, quase ao final da última folha fez sentido, provavelmente por culpa da água que manchou as letras, as transfigurando, dando-as outra personalidade, talvez a sua verdadeira personalidade, talvez as tenha tranformado em monstro, em anjo, em pedra, nada se sabe só sei que o que lá estava escrito guardei na memória: "Murilo Coutinho é a vergonha do coração".
Munnin
murilo, 1:25 PM ...
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Segunda-feira, Março 28, 2005
Um contra-paredes.
Eu nunca vi as paredes. A sala é totalmente decorada com pasta de ficheiros amarelas, por todos os lados. O máximo que se pode ver é metade de uma janela que só permite olharmos o céu, pois cobre o que deveríamos ter de visão da rua. Acaba funcionando como uma clarabóia, só que acidental.
São tantas pastas, tudo meticulosamente separado e orgnizado por ano, número, dia, mês, tipo, apensos, anexos e prazos. Parece uma destas artes modernas com símbolos abstratos que não conseguimos decifrar. Tudo tem etiquetas e elas são grandes! Riscadas à mão primeiramente, para posteriormente serem substituídas por outras digitalizadas sempre carregando inscrições metafóricas, como um quadro de arte pós-moderna "agosto/2005" "dar baixa" "protocolo" "petições".
Recebo pilhas de papéis com vários carimbos, assinaturas, tenho contato com máquinas, devo numerar tudo, tudo tem seu número, 2005, 08/04/1997, 001.2002.1.0029758-3, 50 centavos, etc. Tudo deve ser separado novamente, e novamente colocado com numerações. Eu já tenho até uma senha, uma senha só minha com o meu nome, meu cpf. Tenho horários, calendários de atividades, prazos, rotinas, intervalos periódicos para cafés.
Temos duas frasqueiras de café: uma permanentemente vazia e a outra com um café preto extremamente adocicado. Há também na bandeja prateada que cerceia o café uma caixa plástica com biscoitos, sempre de boa qualidade. Todos os dias, às 10:45 eu tomo um copo plástico de 100 ml de café e como dois biscoitos, limpo as mãos na barra da calça, não quero engordurar o teclado, pois assim os números podem desaparecer, ficando apenas as teclas. De nada serviria ter uma tecla sem uma numeração, é como se a função dela desaparecesse. Por mais que eu a aperte e ela mostre o número correspondente, de nada ela serviria, somente a marcação que ela faz. A função dela de referência e instrução estaria arruinada.
Eu realmente me preocupo com a saúde das teclas que eu tenho contato. Quero que elas se sintam especiais, queridas, protegidas, importantes, que percebam que estão guiando estes olhos ávidos por seqüências alfa-numéricas e de ordens de chegada. Mas há uma coisa que me irrita profundamente.
Temos um só balcão com um espaço ao público de aproximadamente quatro metros quadrados e todos sem encostam no balcão dizem bons dias e chamam por números. Eu busco cada uma destas numerações e as levo até aquelas bocas cariadas que as chamam, mas ninguém, literalmente ninguém entra na fila. Isto causa um caos à ordem tão perfeitamente posta aos olhos dos mesmos.São criaturas totalmente desprezíveis, medíocres, que chamam por números, entregamos os papéis e simplesmente percebem que disseram o número errado, que perderam prazos, que esqueceram datas.
Falham, miseravelmente falham com aquilo que tinham por melhor, o poder de chamar por um número, uma seqüência dividida por pontos, traços, detalhadamente elaborada para ser de fácil acesso, para ser entregue em questãos de poucos minutos, o mínimo que eles poderiam fazer é respeitar as notações feitas nos rodapés das páginas, nos autos do processo, respeitar a ordem dos vocativos, a lógica-semântica do presente do indicativp do verbo "vir" não sabendo onde estão e para onde vão com tais "vans" colocações sobre problemas que não lhe dizem respeito e que estão pouquíssimo se importando com exceção pelo fato sujo de receberem dinheiro para alegar aquilo e esquecer a numeração de um sonho de alguém de ter sido respeitado, simplesmente respeitado.
Sinceramente, confesso sentir algum apego por estes papéis, por pastas, clippers de metal, por grampeadores, elásticos, teclas, botões, por procedimentos estruturais de funcionalidade, pois isto se tornou parte de um belo sonho realizado numa sala 40x40 onde eu nunca vi a cor das paredes pois estas estão cobertas por expressões contemporâneas de arte moderna e serviço público. Só que tudo isto nunca me fez mal, só uma vez que um senhor de bigode encardido pelo cheiro do cigarro me brigou porque eu estava demorando para encontrar o número que ele havia dito errado.
Munnin
Texto integralmente dedicado à Isabela, webdesigner
murilo, 4:38 PM ...
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Sábado, Fevereiro 12, 2005
came from the skies...
murilo, 11:22 PM ...
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